O colaborador geralmente chega no horário, pouco falta ao trabalho e, durante o expediente, dá sinais de estar atarefado. Nenhum sinal de absenteísmo até aqui, certo? Mas observe-o um pouco mais. No meio de uma reunião importante, ele discretamente pega o celular e digita alguma coisa. Enquanto fala ao telefone com um cliente, navega uma página da internet. Mesmo quando está em uma tarefa que exige total concentração, não deixa de checar um e-mail que acaba de chegar. E se você checar o computador dele, poderá encontrar várias tarefas iniciadas, ainda sem conclusão.

A cena descreve uma situação que poderíamos chamar de “absenteísmo mental”, que ocorre quando não estamos com atenção naquilo que fazemos. E isso acontece em 47% do tempo, segundo uma pesquisa da Universidade de Harvard.

É uma grande ironia, não? Nesta chamada Era do Conhecimento, em que o grande valor de um profissional é a capacidade intelectual, parte de sua energia mental é consumida com divagações, preocupações, com distrações muitas vezes provocadas pela própria tecnologia que está a seu serviço no trabalho.

O problema é que nunca foi tão desafiador para o ser humano sustentar a atenção como nos tempos atuais. No dia a dia, precisamos lidar com uma grande quantidade de informações, acontecimentos e demandas, e para isso alternamos o foco entre vários assuntos e tarefas que acontecem simultaneamente. Lidamos também com as constantes interrupções das mensagens eletrônicas e os atrativos da internet, que facilmente nos distraem. Tudo isso nos habitua a fazer pingue-pongue com a atenção e enfraquece nossa capacidade de nos concentrar quando é necessário.

A pergunta que não quer calar é: qual é o impacto da dispersão da atenção no desempenho de um profissional? Neurocientistas e estudiosos do comportamento trazem algumas respostas:

• Larry Rosen, especialista em psicologia da tecnologia da Universidade da Califórnia, constatou em seus estudos que as pessoas conseguem manter-se concentradas de 3 a 5 minutos em média e então mudam de tarefa ou se distraem. Na visão dele, as constantes mudanças de foco nos impedem de aprofundar no que fazemos, e tudo fica superficial.

• Earl Miller, neurocientista do Massachussets Institute of Technology (MIT) e especialista mundial em atenção dividida, afirma que a alternância do foco de atenção entre várias tarefas cognitivas (multitarefa) pode derrubar a produtividade em até 40%.

• Segundo Daniel Levitin, neurocientista da McGill University do Canadá, a multitarefa cognitiva eleva brutalmente o consumo de energia do cérebro, provocando grande desgaste físico e mental – eis porque nos sentimos tão esgotados ao final de um dia agitado no trabalho. Repetidas mudanças de foco produzem ansiedade, que eleva os níveis dos hormônios do stress e nos deixam mais propensos a atitudes agressivas e impulsivas.

Eu poderia citar ainda muitos outros estudos que relacionam qualidade de atenção, desempenho profissional e stress, mas vamos parando por aqui… Talvez o que mais interesse no momento é: se admitirmos que esse cenário é real, o que as organizações podem fazer para minimizar o “absenteísmo mental” de seus colaboradores? Destaco aqui duas linhas de ação que me parecem fazer mais sentido:

1. Mudar a cultura de que é preciso estar conectado 24 horas por dia, 7 dias por semana, bastante difundida nesses tempos de acessibilidade total via smartphone. Muita gente responde imediatamente uma mensagem eletrônica de trabalho com receio de ser mal vista, mesmo que a mensagem chegue às 10 horas da noite ou num domingo após o almoço. E, claro, há quem espere que sua mensagem seja imeditatamente respondida! Vamos combinar, as pessoas têm direito (e necessidade!) de se concentrar numa tarefa, e também de desligar dos assuntos do trabalho quando não estão em “horário comercial”. Na medida em que se respeita isso (e os líderes de equipes têm um papel fundamental aqui), fica mais fácil disseminar a ideia de que espiadas no Facebook, troca de mensagens com os amigos no WhatsApp e outras interações sociais não são apropriadas no “horário comercial”. A fronteira entre trabalho e vida pessoal, atualmente um tanto difusa, precisa ser restabelecida.

2. Proporcionar às pessoas recursos para gerenciar o stress e a atenção. Cada vez mais, organizações criam espaços para a “descompressão” dos colaboradores – jardins agradáveis, salas de descanso, espaços informais para um cafezinho entre colegas etc. Nesses ambientes, as pessoas podem descansar a mente e depois retomar o trabalho revigoradas. Há empresas que oferecem atividades como ginástica laboral, tai chi chuan ou massagens, visando ao relaxamento. E uma tendência bastante difundida no exterior é a realização de programas de mindfulness no ambiente corporativo. Trata-se de um treino mental, validado pela neurociência, que comprovadamente aumenta o domínio da atenção, traz clareza mental, favorece a autorregulação emocional e combate o stress e a ansiedade.

Atenção concentrada é o que faz o trabalho ser feito. É o motor da produtividade. Operações mentais complexas não acontecem sem uma mente focada”, diz o professor Jeremy Hunter, da Peter Drucker Graduated School, referindo-se ao que Drucker chamava de “trabalhadores do conhecimento” na “Era do Conhecimento”. Se é assim, é preciso tratar a atenção como um recurso estratégico. Pessoas com a habilidade de gerenciá-la, juntamente com o stress, têm melhor qualidade de vida, são mais efetivas naquilo que fazem e tornam melhor o clima de trabalho.

Regina Giannetti
Por Regina Giannetti D. Pereira
É coach e facilitadora especializada em gerenciamento do stress e da atenção e desenvolvimento de inteligência emocional. Criadora do projeto Você Mais Centrado, ministra workshops e programas de mindfulness abertos e in company. Site: www.vocemaiscentrado.com.br

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