Clipping Jornal O Globo – 21/09/2014

RIO — Se você tem em torno de 40 anos, provavelmente, quando tinha entre 15 e 18 anos, respondeu a um tradicional teste vocacional. Depois de marcar um X em uma série de questões, o teste dava uma resposta, muitas vezes única, de qual carreira o jovem deveria seguir. E aquilo servia de orientação, mesmo que não houvesse identificação com a futura profissão. Surgido no início do século 20, quando as profissões começaram a se proliferar, o teste vocacional, hoje, tem sua eficácia questionada por especialistas da área. É que responder a um questionário isolado, especialmente na era digital, não ajuda a trazer muitas respostas — pelo contrário, pode até confundir ainda mais. Apesar disso, a ferramenta ainda atrai interesse.

— É uma metodologia que, sozinha, é muito perigosa de ser aplicada. Mas, apesar disso, sabemos que o teste puro e simples ainda é utilizado em alguns lugares — afirma a consultora de RH da Cia de Talentos, Tatiana Pina.

Na própria internet é fácil encontrar opções disponíveis. Uma busca pelos termos “teste vocacional on-line gratuito” tem como retorno 38.200 resultados. E o que preocupa especialistas é que jovens ou profissionais em dúvida sobre a carreira tomem como base uma resposta que, sozinha, não basta para traçar caminhos no trabalho.

— O que deve estar em questão, no trabalho de orientação vocacional, é a construção da escolha. Quando se usa um teste, o respondente está passivo. É uma ferramenta que não avalia particularidades e que não tem subjetividade — destaca Chris Vilhena, que aplica uma metodologia de coaching à orientação vocacional. — Há dois aspectos que critico no teste. O primeiro é o fato de a escolha não ser produzida pelo sujeito, mas vir pronta, e outra é que não leva em consideração as características e as histórias de cada um.

NOVAS FORMAS DE ORIENTAÇÃO

Mas, como os recém-saídos dos bancos escolares continuam em busca de ajuda para escolher a carreira, profissionais da área desenvolvem novas metodologias que deem conta de orientá-los. Os métodos podem até incluir uma aplicação de teste, mas nunca somente isso.

Sócia-proprietária da GW Vocação & Relações Humanas, Giselle Welter, que orienta os jovens no programa da Globo “Como será?”, faz trabalhos individuais ou em grupo e usa alguns testes de aptidão nas cerca de 10 sessões.

— Comparo o teste com um exame de raios-x: o resultado pode até dar uma hipótese diagnóstica, mas a imagem será analisada de acordo com a queixa que foi trazida. O médico nunca vai olhar para o exame isolado — diz Giselle.

Em sua prática, a psicóloga aconselha os interessados a fazerem um “dever de casa”: procurar as ementas e disciplinas dos cursos universitários ou técnicos potenciais e também procurar ter um “choque de realidade”.

— Procurar profissionais da área pretendida ou visitar uma empresa do ramo de interesse e vivenciar suas atividades é muito importante.

Buscar os conteúdos que serão oferecidos na formação após o vestibular, embora seja uma tarefa fácil de se fazer pesquisando na internet, é algo que raramente acontece. Jorge Matos, presidente da Etalent, consultoria especializada em gestão de pessoas e carreira, conta que, no início dos anos 80, a maioria de seus alunos na faculdade de administração havia sido submetida ao teste vocacional.

— Na prática, de cerca de 40 ou 50 alunos, apenas dois ou três tinham clareza de onde estavam e para onde queriam ir. Depois fui ver que o problema não era restrito aos alunos, mas afetava também profissionais de 30, 40 ou 50 anos — conta Matos, que, até o início do ano 2000, trabalhou com o Projeto Ser.

Mas, desiludido com a forma burocrática como as escolas tratavam o tema e com a falta de profissionais qualificados para fazer orientação vocacional, desistiu por um tempo de trabalhar com isso e voltou a empresa para as corporações. Agora, a Etalent se prepara para lançar, em 2015, uma plataforma voltada para os jovens.

— São várias etapas, que incluem a identificação de características comportamentais, o tipo de inteligência, a descoberta do que move a pessoa, a experimentação prática e a apresentação de profissionais — diz Matos, acrescentando que o objetivo, mais do que recomendar uma carreira específica, é apontar caminhos. — Até porque a gente vive um dos cargos possíveis dentro de uma formação acadêmica. São vários os caminhos possíveis dentro de uma profissão.

GRAFOLOGIA APLICADA À CARREIRA

Especializada em grafologia, a psicóloga Luciana Boschi usa a técnica de interpretar a personalidade por meio da letra e da escrita no seu processo de orientação vocacional. O jovem ou profissional que quer mudar de carreira redige uma redação e, após análise, recebe um mapeamento dos pontos fortes e fracos e uma área de atuação indicada.

— A diferença de usar a grafologia e aplicar um teste está no fato de que, por meio da escrita, a pessoa realmente se revela. Quem faz um teste pode manipular as respostas, o que não é possível pela grafologia — diz Luciana, que é autora de “Grafologia e Profissões – orientação vocacional através da escrita” (Semente Editorial).

Já Chris Vilhena adaptou a metodologia de coaching, usada para orientação de carreira para profissionais com trajetória já encaminhada, para orientar tanto os jovens como quem quer mudar de rumo.

— O coaching parte do princípio de que é preciso definir o ponto A, onde o profissional está, e o ponto B, para onde ele quer ir. Para isso, é fundamental desenvolver um trabalho de autoconhecimento — explica a coach, que aplica testes em parceria com uma neuropsicóloga.

Agora, e se o jovem ou profissional não resistir a clicar num dos milhares de testes gratuitos disponíveis na internet?

— Meu conselho para quem não resistir a fazer um teste padronizado é não tomar a parte pelo todo. A construção da escolha passa pela reflexão de muitos aspectos que não estão em meia dúzia de perguntas — conclui Chris.

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