A escassez de talentos deixou de ser um desafio pontual para se tornar uma questão estratégica para empresas de diferentes setores. Em um mercado de trabalho marcado pela transformação tecnológica, pelo surgimento de novas profissões e pela rápida mudança nas competências exigidas, encontrar profissionais que reúnam experiência e qualificação para determinadas funções se tornou cada vez mais difícil. Ao mesmo tempo, a disputa por pessoas qualificadas aumenta a pressão sobre recrutamento, desenvolvimento e retenção.
O cenário exige uma mudança de perspectiva. Como nem sempre é possível encontrar profissionais prontos para todas as necessidades do negócio, as empresas precisam ampliar sua capacidade de identificar potencial e compreender como as pessoas podem evoluir dentro de diferentes contextos. Nesse processo, competências comportamentais como adaptabilidade, aprendizagem contínua, capacidade de causar impacto ao longo do tempo e de lidar com mudanças ganham importância, especialmente quando combinadas à formação técnica.
É nesse ponto que a adequação comportamental se torna uma aliada estratégica. Compreender as características de cada profissional permite identificar não apenas o que ele sabe fazer hoje, mas também os contextos nos quais tende a se adaptar, se desenvolver e gerar resultados de forma sustentável. Dessa forma, a gestão de talentos passa a olhar menos para a busca por profissionais perfeitos e mais para a capacidade de desenvolver o potencial disponível. Mas, afinal, como a adequação comportamental pode ajudar sua empresa a enfrentar a escassez de talentos? Você descobre no artigo de hoje. Boa leitura!
Por que a escassez de talentos muda a forma de contratar?
A competência técnica nesse cenário: importante, mas insuficiente
O que é adequação comportamental e por que ela é importante?
Como o comportamento ajuda a identificar potencial e desenvolver talentos?
A relação entre adequação e retenção
Como a tecnologia pode ajudar a enfrentar a escassez de talentos?
Employee Behavior Management (EBM): transformar comportamento em inteligência
Como desenvolver talentos quando contratar ficou mais difícil?
Conclusão: o futuro da gestão de talentos em um mercado de escassez
O que é escassez de talentos?
A escassez de talentos trata da dificuldade enfrentada pelas empresas para encontrar profissionais com as competências necessárias para preencher determinadas funções. O fenômeno ganhou força com a transformação do mercado de trabalho, a digitalização dos negócios e o surgimento de novas profissões, que aumentaram a demanda por conhecimentos técnicos e habilidades comportamentais cada vez mais específicas.
No Brasil, essa lacuna já aparece há alguns anos. Um estudo do Boston Consulting Group (BCG) estimou um déficit de 8,5 milhões de profissionais qualificados no país em 2020. Mais recentemente, uma pesquisa divulgada pelo G1 apontou que 84% das empresas tinham dificuldades para contratar profissionais adequados, sendo a falta de capacitação e prontidão alguns dos principais fatores. Ao mesmo tempo, o país continuava registrando uma parcela significativa da população em busca de trabalho, evidenciando um descompasso entre a mão de obra disponível e as competências demandadas pelas organizações.
Esse cenário ajuda a diferenciar desemprego e escassez de talentos. Enquanto o primeiro está relacionado à quantidade de pessoas sem trabalho e em busca de uma oportunidade, o segundo está ligado à dificuldade de preencher determinadas posições com profissionais que apresentem as qualificações necessárias. Por isso, uma empresa pode ter vagas abertas mesmo quando existe mão de obra disponível no mercado.
A transformação das profissões também amplia esse desafio. Novas tecnologias e modelos de trabalho modificam rapidamente as competências exigidas, fazendo com que conhecimentos técnicos precisem ser constantemente atualizados. Ao mesmo tempo, habilidades comportamentais como adaptabilidade, colaboração e comunicação assertiva ganham importância para que os profissionais consigam acompanhar essas mudanças.
Nesse contexto, iniciativas de upskilling, reskilling e Treinamento e Desenvolvimento (T&D) são fundamentais para ampliar a qualificação do Capital Humano. Mas vale sempre ressaltar que preparar profissionais para as necessidades do negócio envolve mais do que desenvolver conhecimentos técnicos. É preciso compreender também como suas características comportamentais se relacionam com as exigências de cada função, equipe e contexto organizacional. O desafio atual não é apenas encontrar pessoas, mas encontrar as competências certas para cada contexto, como veremos nos tópicos a seguir.

Por que a escassez de talentos muda a forma de contratar?
A escassez de talentos exige que as empresas ampliem seus critérios para identificar profissionais capazes de contribuir para o negócio. Quando encontrar candidatos que reúnam todas as competências exigidas por uma vaga se torna mais difícil, processos seletivos baseados exclusivamente em experiência e qualificações técnicas podem restringir o acesso a pessoas com potencial para se desenvolver.
Nesse cenário, ganha força uma abordagem que considera não apenas o que o profissional já sabe fazer, mas também sua capacidade de aprender e se adaptar. A experiência continua sendo relevante, mas passa a dividir espaço com fatores como aprendizagem, curiosidade e competências comportamentais. Essa mudança permite identificar profissionais que talvez não preencham todos os requisitos de uma posição no momento da contratação, mas apresentem características compatíveis com seu desenvolvimento futuro.
A estratégia também pode ir além do recrutamento externo. Desenvolvimento interno, mobilidade e formação de profissionais tornam-se alternativas importantes para reduzir a dependência de um mercado com oferta limitada. Ao identificar talentos dentro da própria organização e oferecer oportunidades de upskilling e reskilling, o RH consegue construir parte das competências de que o negócio precisa em vez de depender exclusivamente de profissionais prontos.
Para sustentar essa mudança, dados também ganham importância. Avaliações técnicas e comportamentais, people analytics e ferramentas de inteligência artificial podem ampliar a capacidade de comparar perfis, identificar padrões e reconhecer potenciais que não seriam evidentes apenas pela análise curricular. A tecnologia, nesse caso, ajuda a tornar o processo mais abrangente e baseado em evidências, sem substituir a avaliação humana.
A lógica passa, portanto, de “quem já possui tudo o que a vaga exige?” para “quem apresenta maior potencial para desenvolver o que a organização precisa?”. Essa mudança é especialmente importante quando o mercado não oferece profissionais prontos em quantidade suficiente. Afinal, em um mercado de escassez, contratar exclusivamente pelo currículo pode fazer empresas perderem talentos com potencial.

A competência técnica nesse cenário: importante, mas insuficiente
Por muito tempo, priorizar hard skills foi uma estratégia coerente para as empresas. Em um mercado no qual as funções eram mais estáveis e o conhecimento técnico permanecia válido por períodos maiores, contratar alguém que já dominasse as ferramentas, processos e conhecimentos exigidos pelo cargo era uma forma objetiva de reduzir o tempo de adaptação e garantir produtividade. Formação, experiência e certificações, portanto, tinham um peso central na seleção de profissionais.
Esse cenário, porém, mudou. A transformação tecnológica acelerou a atualização das profissões e fez com que parte significativa do conhecimento técnico pudesse ser automatizada, digitalizada ou até substituída por ferramentas de inteligência artificial. Em vez de desaparecerem, as hard skills passaram a ter um ciclo de validade menor: conhecimentos que hoje são diferenciais podem se tornar básicos ou perder relevância à medida que novas tecnologias surgem. Por isso, contratar alguém apenas pelo domínio técnico necessário para a função atual pode não garantir que esse profissional consiga acompanhar as necessidades da organização amanhã.
Por isso, as empresas mais competitivas do mercado já fazem os processos de R&S pensando nas essential skills dos profissionais. Na visão da ETALENT, elas combinam conhecimentos técnicos, habilidades práticas e comportamentos adequados, considerando também aspectos relacionados à satisfação e à motivação. Comunicação eficaz, pensamento crítico e analítico, criatividade e resolução de conflitos são exemplos de competências que ajudam o profissional a utilizar seus conhecimentos de maneira mais ampla e a responder a situações que não podem ser resolvidas apenas por procedimentos técnicos.
A diferença é especialmente importante diante da automação. Quanto mais a tecnologia assume tarefas técnicas, repetitivas e previsíveis, maior tende a ser o valor das capacidades humanas envolvidas em interpretar cenários, tomar decisões, colaborar, resolver problemas e se adaptar ao que ainda não está previsto. Não se trata, portanto, de escolher entre competências técnicas e comportamentais, mas de compreender como elas se complementam. Por isso, a adequação comportamental se torna mais e mais necessária, como veremos a seguir.

O que é adequação comportamental e por que ela é importante?
A adequação comportamental é o alinhamento entre as características de uma pessoa e as demandas do cargo, da equipe e da organização. Na prática, significa compreender como determinado profissional tende a agir, se comunicar, tomar decisões, lidar com mudanças e se relacionar para avaliar em quais contextos suas características podem ser melhor aproveitadas.
O conceito parte da ideia de que não existem pessoas certas ou erradas, mas pessoas mais adequadas para determinados contextos. Por isso, analisar apenas a experiência ou as competências técnicas de um profissional não é suficiente para entender se ele terá condições de prosperar em uma determinada função. É preciso considerar também seu perfil comportamental e a relação dele com as exigências do cargo e do ambiente em que irá atuar.
Uma das formas de fazer essa leitura é por meio da metodologia DISC, que permite compreender tendências comportamentais a partir de fatores como dominância, influência, eStabilidade e conformidade. O objetivo não é colocar profissionais em categorias rígidas, mas oferecer informações que ajudem a entender suas características e como elas podem se relacionar com diferentes situações de trabalho.
Essa análise ganha ainda mais importância quando considera o contexto. Um profissional com forte orientação para resultados, por exemplo, pode encontrar um ambiente favorável em posições que exigem decisões rápidas e autonomia, enquanto funções que dependem intensamente de escuta, mediação e relacionamento podem demandar outras características. O mesmo vale para a relação com diferentes estilos de liderança e culturas organizacionais.
É essa visão que sustenta ideias como ter pessoa certa no lugar certo e e a ecologia humana: compreender as características das pessoas para construir relações mais equilibradas entre indivíduos, funções e ambientes. Quando uma pessoa encontra um contexto que aproveita suas tendências naturais, ela tem melhores condições de utilizar seus pontos fortes, desenvolver novas competências e evoluir profissionalmente.
Mais do que buscar um profissional completamente pronto, a adequação comportamental permite identificar onde seu potencial pode ser melhor aproveitado e desenvolvido. Assim, a empresa deixa de tentar encaixar pessoas em funções e passa a criar condições para lapidar talentos de acordo com as necessidades do negócio. Não existem pessoas certas ou erradas: existem pessoas mais adequadas para determinados contextos. Conhecer o comportamento e colocá-lo em uma função que aproveite suas características naturais cria melhores condições para a performance e para o desenvolvimento do talento que a empresa precisa.

Como o comportamento ajuda a identificar potencial e desenvolver talentos?
Como vimos, em um cenário de escassez de talentos, avaliar um profissional apenas pelo desempenho que ele já apresentou pode limitar as possibilidades de contratação e desenvolvimento. Afinal, experiência e resultados anteriores mostram o que uma pessoa conseguiu fazer em determinado contexto, mas não necessariamente revelam tudo o que ela pode desenvolver em uma nova função. Para ampliar essa leitura, é preciso observar a combinação entre conhecimentos, habilidades e comportamento e entender quais desses elementos já estão consolidados e quais ainda podem ser desenvolvidos.
Essa lógica parte da conhecida teoria CHA, desenvolvida pelo psicólogo David McClelland na década de 1970. O modelo organiza as competências profissionais em três dimensões: Conhecimentos, relacionados ao saber teórico; Habilidades, que correspondem à capacidade de transformar esse conhecimento em prática; e Atitudes, associadas à disposição para agir. A ideia é que esses elementos precisam estar equilibrados para sustentar um bom desempenho.
A ETALENT amplia essa perspectiva por meio da Matemática do Talento. Nessa abordagem, o comportamento ganha um papel central porque influencia a forma como uma pessoa utiliza seus conhecimentos e habilidades e se relaciona com determinadas atividades. Também entram na equação fatores ligados à felicidade, às necessidades individuais e à ecologia humana, reconhecendo que o desempenho não depende exclusivamente daquilo que o profissional sabe ou consegue fazer.
É nesse ponto que o comportamento pode contribuir para a identificação de potencial. Características comportamentais ajudam a compreender como uma pessoa tende a lidar com mudanças, aprender, se relacionar, tomar decisões e responder a diferentes contextos. Isso não significa prever seu desempenho futuro ou determinar de antemão o que ela será capaz de fazer, mas reunir evidências que ajudem a entender quais ambientes e atividades podem favorecer seu desenvolvimento.
O Cubo de Competências traduz essa análise de forma prática. O modelo considera três dimensões — conhecimentos, comportamento e habilidades — e compara o que uma função exige com aquilo que o profissional apresenta naquele momento. A diferença entre os dois níveis revela os gaps que precisam ser desenvolvidos. Assim, um candidato não precisa necessariamente chegar à empresa com todas as características do perfil ideal: é possível identificar onde estão suas lacunas e avaliar se elas podem ser trabalhadas ao longo da jornada profissional.

Essa perspectiva é especialmente relevante em um mercado com poucos profissionais prontos. Em vez de procurar exclusivamente quem já reúne 100% dos requisitos de uma posição, a empresa consegue distinguir entre aquilo que precisa estar presente desde o início e aquilo que pode ser desenvolvido por meio de treinamento, experiência e acompanhamento. O comportamento, nesse caso, ajuda a compreender se existe compatibilidade entre a pessoa, a função e o contexto necessário para que esse desenvolvimento aconteça.
O resultado é uma mudança importante na gestão de talentos: o foco deixa de estar apenas na experiência acumulada e passa a considerar também a capacidade de desenvolvimento. Para a organização, isso amplia o universo de profissionais que podem ser considerados; para o colaborador, cria oportunidades de crescimento mais alinhadas às suas características e ao seu potencial. Por isso, o comportamento não determina o futuro de uma pessoa, mas oferece evidências importantes sobre como ela tende a aprender, se adaptar e se desenvolver.
A relação entre adequação e retenção
Quando o assunto é a escassez de talentos, encontrar um profissional qualificado é apenas parte do desafio. Depois da contratação, a empresa precisa criar condições para que essa pessoa permaneça, se desenvolva e continue contribuindo para o negócio. Quando a oferta de profissionais é limitada, perder alguém que já conhece os processos, a cultura e as demandas da organização pode representar um impacto ainda maior do que antes.
Aqui, entra a relação direta entre a adequação comportamental também se relaciona à retenção de talentos. Quando as características de uma pessoa estão alinhadas às demandas da função, aumentam as possibilidades de que ela encontre sentido no trabalho, utilize seus pontos fortes e consiga se desenvolver naquele contexto. O contrário também é verdadeiro: um profissional tecnicamente qualificado, mas constantemente submetido a situações incompatíveis com suas características, pode enfrentar mais dificuldades de adaptação e satisfação.
Essa relação afeta diretamente o engajamento e a sensação de pertencimento. Pessoas que percebem coerência entre suas características, suas atividades e o ambiente em que trabalham tendem a encontrar melhores condições para construir relações profissionais, desenvolver competências e participar da dinâmica da organização. A experiência do colaborador, portanto, começa antes mesmo da admissão e continua sendo influenciada pela qualidade dessa adequação ao longo da jornada.
Isso não significa que o comportamento, sozinho, determine a permanência de alguém. Remuneração, oportunidades de crescimento, liderança, cultura, condições de trabalho e reconhecimento também influenciam a decisão de permanecer ou sair. Por isso, a adequação comportamental deve ser entendida como parte de uma estratégia mais ampla de gestão de pessoas, capaz de conectar contratação, desenvolvimento e experiência do colaborador.
Outro fator que entra em cena é a possibilidade de o coloborador ter a chamada performance sustentável, onde resultados consistentes não dependem apenas de extrair o máximo das pessoas no presente, mas de criar condições para que elas consigam performar, aprender e evoluir ao longo do tempo. Em um mercado com escassez de profissionais, essa capacidade de preservar e desenvolver os talentos existentes se torna ainda mais estratégica.
Por isso, a retenção deixa de ser apenas uma resposta ao turnover e passa a fazer parte da própria estratégia de talentos. Quanto melhor a organização compreende as pessoas e cria condições para que elas estejam em contextos nos quais possam prosperar, maiores são as possibilidades de transformar uma contratação em uma relação profissional duradoura e produtiva.

Como a tecnologia pode ajudar a enfrentar a escassez de talentos?
Em um momento de escassez, a tecnologia pode ampliar a capacidade das empresas ao transformar dados sobre pessoas em informações que apoiam decisões de contratação, desenvolvimento e gestão de pessoas. Inteligência artificial (IA), people analytics e avaliações comportamentais permitem identificar padrões, cruzar diferentes informações e compreender melhor os profissionais disponíveis, ajudando a organização a tomar decisões mais precisas sobre onde e como utilizar seus talentos.
No recrutamento e seleção, por exemplo, ferramentas de IA podem apoiar a análise de currículos, identificar correspondências entre requisitos de uma vaga e características dos candidatos e agilizar etapas operacionais do processo. Quando combinadas a dados comportamentais, essas tecnologias também podem ampliar a compreensão sobre a adequação de um profissional a determinado contexto. O objetivo não é encontrar automaticamente a “pessoa perfeita”, mas reunir mais evidências para avaliar conhecimentos, habilidades e comportamentos em conjunto.
O people analytics, por sua vez, permite olhar para os dados existentes na organização de forma mais estratégica. Informações sobre desempenho, movimentações, desenvolvimento, engajamento e turnover podem ser cruzadas para identificar padrões e apoiar decisões. A empresa pode, por exemplo, reconhecer quais características aparecem com maior frequência entre profissionais que apresentam bom desempenho em determinada função ou identificar áreas nas quais existem gaps de competências que precisam ser trabalhados.
Essa inteligência também pode apoiar a mobilidade interna e a sucessão. Ao conhecer melhor as competências e características dos profissionais que já fazem parte da organização, o RH consegue identificar pessoas que podem estar preparadas para assumir novas responsabilidades ou que apresentam potencial para determinadas posições após um processo de desenvolvimento. Em vez de recorrer automaticamente ao mercado externo sempre que surge uma necessidade, a empresa passa a enxergar melhor o talento que já possui.
Outro ganho está na possibilidade de personalizar o desenvolvimento. Em vez de oferecer os mesmos treinamentos para todos, dados sobre competências, comportamento e necessidades individuais podem ajudar a direcionar experiências de aprendizagem mais adequadas a cada profissional. Isso torna o desenvolvimento mais conectado às necessidades reais do negócio e às características de quem participa desse processo.
É importante, porém, estabelecer um limite: tecnologia não substitui o olhar humano. Algoritmos podem encontrar padrões, cruzar informações e fazer recomendações, mas decisões relacionadas a pessoas envolvem contexto, subjetividade, relações e consequências que não podem ser reduzidos a dados. Por isso, quanto mais sofisticadas forem as ferramentas utilizadas pelo RH, maior deve ser a preocupação em combiná-las à análise crítica dos profissionais responsáveis pela gestão. É justamente nessa interseção entre tecnologia, dados e comportamento que surge o conceito de Behavior Tech, que veremos no tópico a seguir.

Employee Behavior Management (EBM): transformar comportamento em inteligência
Se o comportamento ajuda a compreender o potencial das pessoas, o desafio seguinte é incorporar esse conhecimento à gestão de forma estruturada. É essa a proposta do Employee Behavior Management (EBM): colocar o comportamento no centro das decisões relacionadas aos talentos, transformando informações comportamentais em uma base para gerir pessoas de maneira mais estratégica.
Na prática, o EBM parte da compreensão de que cada profissional apresenta características que podem ser mais ou menos adequadas às diferentes demandas da organização. A metodologia DISC, por exemplo, permite identificar tendências comportamentais e compreender como elas se manifestam no ambiente de trabalho. O objetivo não é classificar pessoas de forma rígida, mas criar uma linguagem comum para entender diferentes maneiras de agir, comunicar, decidir e se relacionar.
Essa leitura pode ser aplicada em diferentes momentos da jornada profissional. Na contratação, ajuda a avaliar a relação entre o perfil comportamental e as características da posição. No desenvolvimento, permite identificar caminhos mais coerentes com as necessidades do profissional e da organização. Na liderança, contribui para que gestores compreendam melhor as diferenças individuais e adaptem sua forma de conduzir, comunicar e desenvolver suas equipes, e assim por diante.
Nesse processo, o ETALENT Behavior System (EBS) materializa a aplicação do EBM ao oferecer uma estrutura para utilizar o conhecimento sobre comportamento na gestão dos talentos. A proposta é fazer com que essa informação deixe de ficar restrita a uma avaliação pontual e passe a acompanhar diferentes decisões relacionadas às pessoas.
O EBM também contribui para reduzir a dependência de julgamentos subjetivos. Isso não significa eliminar completamente os vieses nem transformar o comportamento em uma fórmula capaz de determinar o sucesso de alguém. Significa, antes, adicionar critérios estruturados à tomada de decisão, tornando mais explícitas as razões pelas quais uma pessoa é considerada adequada para determinado contexto ou caminho de desenvolvimento.
É essa mudança que aproxima o EBM do conceito de Behavior Tech: o comportamento deixa de ser apenas uma característica observada individualmente e passa a integrar uma abordagem estratégica de gestão. Em um mercado no qual encontrar profissionais prontos se torna cada vez mais difícil, essa perspectiva permite ampliar o olhar sobre os talentos disponíveis. Em vez de perguntar apenas “quem está disponível?”, a empresa passa a perguntar “qual pessoa tem maior potencial para este contexto?”.

Como desenvolver talentos em um cenário de escassez?
Quando encontrar profissionais prontos se torna mais difícil, a alternativa não é apenas ampliar a busca no mercado. As empresas também precisam olhar para dentro e entender quais competências já existem na organização, quais precisam ser desenvolvidas e quais caminhos podem preparar seus profissionais para novos desafios.
Essa mudança coloca o desenvolvimento no centro da estratégia de talentos. Em vez de esperar que o mercado ofereça todas as competências necessárias, a organização passa a construir parte desse conhecimento internamente, combinando aprendizagem, experiência prática e compreensão das características de cada pessoa. Veja, a seguir, algumas alternativas.
Criar planos de desenvolvimento alinhados ao perfil de cada profissional
Os planos de desenvolvimento individuais tendem a ser mais efetivos quando parte de uma compreensão clara sobre onde o profissional está, onde precisa chegar e quais características podem favorecer esse percurso. Nesse sentido, os PDIs podem combinar necessidades do negócio, competências exigidas pela função e aspectos comportamentais que precisam ser fortalecidos.
O autoconhecimento também tem papel importante nesse processo. Quando o profissional compreende melhor suas características, pontos fortes e oportunidades de desenvolvimento, consegue participar de maneira mais ativa da própria trajetória. Para a empresa, isso ajuda a construir planos menos genéricos e mais conectados às necessidades reais de cada pessoa.
Investir em upskilling e reskilling
Upskilling e reskilling são estratégias importantes para ampliar o conjunto de competências disponível internamente. Enquanto o primeiro aprofunda conhecimentos necessários para a função atual, o segundo prepara o profissional para desempenhar atividades diferentes ou assumir novas posições.
Em um cenário de transformação constante, essas iniciativas permitem que a organização desenvolva competências antes que elas se tornem uma necessidade urgente. Além de corrigir gaps depois que eles aparecem, trata-se de preparar pessoas para mudanças que já estão no horizonte.
Preparar líderes para desenvolver pessoas
O desenvolvimento não depende apenas de cursos ou treinamentos. A liderança tem influência direta sobre a experiência cotidiana dos profissionais e pode criar (ou limitar, em alguns casos) oportunidades de aprendizagem. Líderes preparados para reconhecer diferenças individuais, oferecer feedback, delegar responsabilidades e estimular autonomia ajudam a transformar o próprio trabalho em espaço de desenvolvimento. Assim, desenvolver talentos deixa de ser uma responsabilidade exclusiva do RH e passa a fazer parte da gestão cotidiana.
Ampliar o recrutamento interno
Quando a empresa conhece melhor seus profissionais, também consegue enxergar possibilidades além das funções que eles ocupam atualmente. O recrutamento interno permite aproveitar competências existentes e criar novas trajetórias sem depender exclusivamente da contratação externa.
Uma mudança de área, função ou responsabilidade em processos como o job rotation também pode representar uma oportunidade de desenvolvimento. Nesse processo, a adequação comportamental ajuda a avaliar em quais contextos as características de cada profissional podem ser melhor aproveitadas, sempre considerando também as competências que ainda precisam ser construídas.
Construir sucessão antes da necessidade aparecer
A sucessão também precisa ser encarada como um processo contínuo. Esperar que uma posição fique disponível para então procurar alguém preparado aumenta a dependência do mercado externo — justamente quando a oferta de profissionais pode ser limitada.
Mapear potenciais sucessores e desenvolver essas pessoas com antecedência permite criar uma reserva interna de competências. O objetivo não é determinar previamente quem ocupará cada posição, mas preparar profissionais para que possam assumir novos desafios quando as necessidades da organização mudarem.
Transformar aprendizagem em um processo contínuo
Por fim, o desenvolvimento precisa deixar de ser tratado como uma ação pontual e passar a fazer parte da jornada profissional. É essa visão que se aproxima do conceito de Lifelong Impact, conceito próprio da ETALENT. Para nós, não basta acumular conhecimento continuamente; é preciso transformar conhecimento, comportamento e habilidades em impacto sustentável ao longo do tempo.
Essa perspectiva também reforça o princípio Human First da ETALENT. Desenvolver pessoas não significa apenas preparar a força de trabalho para atender às necessidades do negócio, mas criar condições para que os profissionais reconheçam seu potencial, evoluam e encontrem contextos nos quais possam gerar resultados de maneira sustentável.
No fim, a lógica é simples: quanto mais a empresa desenvolve os talentos que já possui, menos dependente ela se torna de encontrar profissionais completamente prontos no mercado. Em um cenário de escassez, essa capacidade deixa de ser apenas uma iniciativa de desenvolvimento e passa a ser uma vantagem estratégica.

Conclusão: o futuro da gestão de pessoas em um mercado de escassez
A escassez de talentos mudou a relação das empresas com o capital humano. Quando encontrar profissionais que reúnam, ao mesmo tempo, experiência, conhecimentos técnicos e todas as competências exigidas por uma função se torna mais difícil, a capacidade de reconhecer e desenvolver potencial passa a ser tão importante quanto a capacidade de contratar.
Isso não significa que experiência ou competências técnicas perderam relevância. Elas continuam fundamentais para o desempenho das organizações. O que muda é a necessidade de ampliar essa análise. Conhecer o que uma pessoa sabe fazer hoje é importante, mas compreender como ela tende a agir, aprender, se adaptar e evoluir em determinado contexto também oferece informações valiosas para decisões de gestão.
Nesse cenário, o comportamento ganha espaço como uma dimensão estratégica do talento. A adequação comportamental ajuda a compreender a relação entre pessoas, funções e ambientes, enquanto tecnologias e dados ampliam a capacidade das empresas de transformar essas informações em decisões mais estruturadas. Abordagens como o EBM levam essa inteligência para diferentes momentos da jornada, da contratação ao desenvolvimento, da liderança à sucessão.
Ao mesmo tempo, desenvolver e reter quem já está na organização deixa de ser apenas uma boa prática de RH. Em um mercado de escassez, construir competências internamente reduz a dependência de encontrar profissionais prontos e permite que a empresa se prepare continuamente para novas demandas. É uma mudança de perspectiva: em vez de esperar que o mercado ofereça exatamente o talento de que precisa, a organização também passa a participar ativamente da construção desse talento.
Por isso, não se trata de encontrar o profissional “perfeito”. Trata-se de compreender o potencial disponível e criar as condições para que ele seja aproveitado e desenvolvido. A tecnologia pode ampliar essa capacidade, mas não substitui a inteligência humana necessária para interpretar contextos, considerar particularidades e tomar decisões responsáveis sobre pessoas.
No fim, a lógica de “pessoa certa no lugar certo” ganha um significado mais amplo. Não é apenas colocar alguém em uma função compatível, mas criar uma relação equilibrada entre comportamento, competências, contexto e oportunidades de desenvolvimento. Quando esses elementos estão alinhados, a organização cria melhores condições para que as pessoas performem, aprendam e evoluam ao longo do tempo.
Em um mercado marcado pela escassez de talentos, a vantagem competitiva não está apenas em encontrar profissionais prontos para cada desafio, mas em reconhecer potencial, compreender comportamentos e desenvolver pessoas de forma contínua. É essa combinação entre adequação comportamental, tecnologia e desenvolvimento que permite às empresas transformar a escassez em uma oportunidade para construir talentos de maneira mais estratégica e sustentável.



